« As ilusões do localismo »

Sócio-economista, Nicolas Bricas chama a atenção sobre os limites do localismo, tanto por sua contribuição ao desenvolvimento sustentável quanto por sua capacidade de responder às necessidades da população.

1. O apelo muito forte pela venda direta e do circuito curto é percebido pelos consumidores como uma maneira de se engajar no desenvolvimento sustentável. É realmente o caso? O “localismo” é verdadeiramente virtuoso para o planeta?

NB : Compreendemos muito bem o raciocínio implícito que sustenta este sentimento: o local é bom para o meio ambiente pois os alimentos percorrem menos quilômetros.

Certamente o localismo permite encurtar distâncias, reduzir o peso ecológico e econômico dos transportes. Mas o transporte de alimentos é, para dizer a verdade, bem pouco destruidor do meio ambiente. Na França, os transportes representam menos de 14% das emissões de gás de efeito estufa do sistema alimentar. Enquanto a produção agrícola, em si, representa aproximadamente dois terços (66%). 

Encurtar a distância do fornecimento não vai conseguir modificar este percentual.É preciso adicionar que os múltiplos pequenos trajetos efetuados para alimentar a rede de distribuição curta são feitos sem economia de escala, ao contrário do transporte de longa distância. 

Além do mais, a distância não diz nada sobre as condições de produção: uma produção pode ser local mas fortemente emissora de gás efeito estufa, como as culturas em estufas aquecidas. Elas podem utilizar muito pesticida ou mão de obra estrangeira explorada. Globalmente, consumir local não tem senão uma influência limitada sobre o desenvolvimento sustentável.

2. O localismo é capaz de atender as necessidades de grupos populacionais importantes?

NB :A autonomia alimentar das cidades é frequentemente uma ilusão. Nós conduzimos um estudo na cidade francesa Montpellier. A área agrícola do Herault, ao lado da cidade,  permitiria  prover 80% das necessidades alimentares da população da região metropolitana. Com duas condições: excluir do circuito de abastecimento todos os moradores da própria área do Hérault que residem fora da região metropolitana, ou seja metade dos habitantes; e transformar todos os vinhedos da região em áreas de pecuária e de cultivo de cereais, oleaginosas e cana de açúcar. Impossível.

A superfície agrícola do Hérault não pode, portanto, alimentar toda a população da cidade, mesmo contando com a limitação de resíduos e a redução da consumação de produtos de origem animal.

Apostar no “tudo local” é só marketing

3. A quais desafios pode responder o localismo?

NB : Ele permite ao consumidor retomar uma forma de controle sobre o sistema alimentar, de reagir aos muitos distanciamentos que experimentamos em nossa relação com a alimentação.

Distanciamento geográfico, por exemplo, em razão da origem de numerosos alimentos e da multiplicação de intermediários. Ou distanciamento cognitivo: não sabemos mais por quem e como é feito.

Realocar nossos alimentos via venda direta, circuito curto ou cooperativas locais é uma maneira de  recuperar, de assumir esse controle.

O localismo pode permitir, notadamente, aos camponeses uma melhor remuneração pela venda direta sem intermediários? Certamente, alguns agricultores podem melhor vender por um preço maior sem intermediários. Mas negociar é uma tarefa demorada que necessita de investimentos.

Os verdadeiros desafios são mais globais: os de precariedade alimentar das cidades, os de pouco acesso a uma alimentação de qualidade, os do poder do sistema alimentar industrial que esgota as fontes e reparte muito desigualmente os ganhos.

O localismo está longe de poder responder a esses desafios. Apostar no “tudo local” é somente uma estratégia de marketing. Pode servir de palco para alguns atores tentando fazer crer que eles fazem algo sustentável sem mudar fundamentalmente o sistema.◼ Tradução Cecília Blanco Peres.

Nicolas Bricas é pesquisador do Cirad e titular da cátedra Unesco Alimentações do Mundo. Suas pesquisas se concentram nos desafios e modalidades de uma alimentação sustentável.