Jóia única com assinatura do produtor

Por Mariana Veiga,  youtuber do canal
«Com a faca e o queijo na mão».

Queijo muda. Não só aquele que passa pelo processo de cura mas também sua técnica e sua história. Com muitos erros e acertos é possível transformar o queijo artesanal em uma joia única com a assinatura do produtor. O reconhecimento é consequência. 

A sofisticação passa pelo Brasil. Nossos queijos entraram no mesmo patamar de qualidade de países como França e Itália. A tradição queijeira chegou pelas mãos dos europeus. O nosso clima e nosso terroir – tão diferentes do Velho Mundo – impuseram adaptações: o calor e a umidade eram inimigos naturais das longas maturações. Fomos nos especializando em queijos mais jovens que refletem o frescor da nossa cultura.

Como fã de um bom frescal, faço uma receita quase sempre que visito um amigo. Sinto que estou exibindo uma preciosidade da minha terra e adoro ver um gringo se deliciar.

Revolução informacional do queijo

Nossa técnica foi se desenvolvendo e a maturação ganhou mais espaço. Com a difusão do conhecimento e o empenho de muita gente séria, a cura de queijos brasileiros ganhou características próprias e, com elas, a valorização internacional.

No ano passado, os brasileiros levaram para casa 57 medalhas no Mundial de Queijos de Tours, na França. Nossos sabores, texturas e cores deixaram países mais tradicionais para trás, já que somente os anfitriões receberam mais medalhas que a gente.

Em 2022, mais um reconhecimento: a revista americana Culture exaltou o queijo coalho e a nossa produção artesanal. Em uma matéria sobre a empreitada internacional do chef Rodrigo Oliveira, o queijo é um dos ingredientes que conferem autenticidade às suas criações.

Olhando para dentro

Quando entendemos o queijo como um alimento autoral, valorizamos o produtor artesanal. E toda a cadeia em torno dele: maquinário, formação técnica, insumos e, claro, o leite. 

Quanto aos insumos, com orgulho vemos fabricantes investindo em pesquisa e desenvolvimento para que suas culturas garantam consistência no nosso sotaque brasileiro. Misturas exclusivas de fermentos nativos preservam o nosso sabor e honram nossa história. 

O aperfeiçoamento técnico também merece destaque: o crescente interesse por boa formação impulsiona a produção de queijos de nível superior. Só entendendo os processos, a maturação e as características de cada produto é que se pode oferecer um queijo digno de premiação.

Só a antropofagia láctea nos une

Há 100 anos, artistas e intelectuais brasileiros realizavam a histórica Semana de 22. Uma de suas bandeiras era pegar o que o cenário internacional tinha de bom e juntar com o talento nacional para fazer uma arte que retratasse o País. 

Os artistas produtores de queijo estão indo por esse caminho: a tradição que começou lá fora e hoje é revisitada por mentes inovadoras. 

Recomendo o filme O Julgamento de Paris, baseado em fatos reais, ele conta como os vinhos americanos quebraram preconceitos franceses e começaram a se firmar no mercado exigente europeu. 

Mais gradual, os queijos brasileiros seguem o mesmo destino. Ganhamos espaço e respeito em um mercado tradicional e conceituado no imaginário popular. Dizer que um queijo é francês ou italiano atribui um automático selo de qualidade. Mas recomendo olharmos também para os nossos talentos. São muitos, em todas as regiões do Brasil. Se você é produtor e tem uma história autoral de inovação para contar, adoraria ouvir. Escreva para marianapintoveiga@gmail.com e vamos dar voz ao queijo artesanal de qualidade.  ◼